
Clarice Ebert (@clariceebert) é psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online

Na era digital, onde cada tela se tornou um púlpito e cada perfil uma tribuna, muitos se transformaram em "escritores", "comentaristas", "críticos", "esclarecedores", "influenciadores", "teólogos", "professores", "pregadores", "psicólogos", "conselheiros", "advogados" e "juízes".
A facilidade de emitir opiniões no meio virtual multiplicou os “pitaqueiros” de plantão, aqueles que assumem posturas de especialistas e espalham perspectivas polarizadas, teologizadas, espiritualizadas, psicologizadas, medicalizadas e politizadas. Nesse cenário, a antiga advertência de Provérbios torna-se surpreendentemente atual: o insensato não encontra prazer em compreender, mas em expor o que pensa (Provérbios 18:2). E há ainda outra advertência igualmente necessária: responder antes de ouvir é insensatez (Provérbios 18:13).
Suas falas, muitas vezes, carregam o selo de “discernimento espiritual”, “revelação divina”, “conhecimento bíblico-teológico” ou até “conhecimento científico”. Porém, quando observadas de perto, não raro se revelam apenas:
É justamente aqui que a sabedoria bíblica nos chama à cautela. Nem tudo aquilo que sentimos profundamente é necessariamente verdadeiro, e nem toda convicção interior pode ser elevada à condição de palavra divina. Há caminhos que parecem certos aos nossos próprios olhos (Provérbios 14:12), e o coração humano também é capaz de nos enganar (Jeremias 17:9). Por essa razão, João aconselha seus leitores a não acreditarem ingenuamente em toda manifestação apresentada como espiritual, mas a examiná-la (1João 4:1). Paulo segue na mesma direção: é preciso examinar tudo e reter o que é bom (1Tessalonicênses 5:21).
Entre tantas vozes, ruídos e certezas "absolutas", cresce o risco de confundirmos vozes e ecos internos como verdades universais, ou como voz do próprio Deus.
O ambiente virtual amplifica tudo, inclusive nossas ilusões. E, quando cada um fala a partir de suas próprias sombras, seus medos, suas feridas e suas fantasias, o que ouvimos não é sabedoria, nem voz divina, mas reverberações da própria cabeça ou pulsões dos próprios desejos.
Por isso, discernimento não deveria significar apenas capacidade de identificar o erro nos outros. Biblicamente, ele também exige coragem para suspeitar das próprias certezas. Jesus nos confronta exatamente nesse ponto quando pergunta por que vemos o argueiro no olho do irmão enquanto não percebemos a trave que está no nosso próprio olho (Mateus 7:3-5). É sempre mais fácil diagnosticar a cegueira alheia do que reconhecer os limites da própria visão.
Contudo, antes de apontar para os “outros”, esses que nos parecem sempre exagerados, equivocados ou arrogantes, existe uma pergunta que se impõe com força e humildade: “Serei eu?”
Essa pergunta desloca o foco. Ela nos chama ao autoexame, à honestidade interior, ao reconhecimento de que também podemos ser fonte de ruído. Também podemos cair na tentação de falar demais, mesmo sabendo de menos.
Perceber-se é o movimento que Paulo propõe quando diz: “Examinai-vos a vós mesmos” (2 Coríntios 13:5). Antes de sermos especialistas na análise das motivações, equívocos e contradições alheias, somos convocados a permitir que a luz alcance nosso próprio interior. É também a oração do salmista: pedir que Deus sonde o coração, examine os pensamentos e revele aquilo que precisa ser percebido e corrigido (Salmos 139:23-24).
Esse autoexame inevitavelmente nos torna mais cuidadosos com as palavras. Afinal, falar não é apenas manifestar uma opinião; é também exercer influência sobre quem nos escuta. Por isso Tiago recomenda que sejamos prontos para ouvir e tardios para falar (Tiago 1:19). E, dirigindo-se especialmente àqueles que pretendem ensinar, faz uma advertência ainda mais contundente: “não vos torneis, muitos de vós, mestres” (Tiago 3:1). Existe responsabilidade no ensino, peso na palavra e consequência naquilo que apresentamos aos outros como verdade.
A sabedoria também se manifesta na contenção. Provérbios associa conhecimento à prudência nas palavras e chega à provocante conclusão de que até o insensato, quando se cala, pode parecer sábio (Provérbios 17:27-28). E Eclesiastes acrescenta outra advertência: não devemos nos precipitar com a boca nem permitir que o coração se apresse em falar diante de Deus (Eclesiastes 5:2).
Em um mundo saturado de opiniões, onde todos querem ensinar, o maior gesto de maturidade seja reaprender a ouvir. Ouvir o outro, ouvir a vida, ouvir a própria consciência. E, sobretudo, ouvir o silêncio que nos revela e devolve ao essencial, para diferenciar a própria voz da voz de Deus.
Clarice Ebert (@clariceebert) é psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online (individual, de casal e de família). Membro e docente de EIRENE do Brasil.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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