
Pastor auxiliar da Assembleia de Deus Ministério Cidade Santa no RJ. Bacharel pela Fateos. Pós-graduação em Ciência das Religiões. Mestrado em Teologia Sistemática pela Fateos. Professor de Teologia, escritor e consultor teológico. Autor de “Panorama da T

Na primeira parte, conhecemos um pouco da trajetória de Frederico Matschulat (1879–1976), pastor de origem alemã ligado à tradição batista, que chegou ao Brasil ainda jovem e desenvolveu uma longa atividade ministerial. Sua história, porém, guarda um aspecto particularmente importante para aqueles que se dedicam a compreender as manifestações pentecostais no Brasil.
Matschulat é apresentado como um pastor piedoso e fervoroso. O aspecto que torna sua trajetória especialmente relevante encontra-se nos relatos acerca de sua vida de oração e de sua experiência com o Espírito Santo.
Segundo o testemunho de uma de suas filhas, quando seu pai entrava no quarto para orar, fechava a porta para buscar a Deus. Durante esses momentos, ele não orava em alemão, sua língua de origem, nem em português. Sua filha testemunhou que Matschulat orava em línguas estranhas.
Esse relato merece atenção por sua importância histórica. Ele aponta para a presença de uma experiência identificada como característica marcante da espiritualidade pentecostal dentro da trajetória de um pastor pertencente ao contexto batista alemão no Brasil.
Por isso, a história de Matschulat contribui para ampliar nosso olhar sobre as manifestações pentecostais brasileiras. A história do pentecostalismo não pode ser compreendida apenas a partir do nascimento e da organização de suas denominações. Existem também experiências individuais de homens e mulheres que, inseridos em diferentes tradições protestantes, vivenciaram manifestações espirituais posteriormente associadas ao movimento pentecostal.
Outro aspecto interessante da espiritualidade de Fritz Matschulat era sua relação com a pregação e a literatura cristã. Seu sobrinho, o pastor Helmuth Matschulat, informou que Fritz costumava citar C. H. Spurgeon muitas vezes em seus sermões.
Em um comentário de Spurgeon sobre Mateus 4, no trecho em que Jesus é conduzido pelo Espírito ao deserto, Matschulat registrou uma anotação pessoal bastante significativa: “Quando conduzido pelo Espírito, nem no mais desolado deserto estarei sozinho.”
A frase ajuda a compreender algo de sua espiritualidade. Para Matschulat, a atuação do Espírito Santo não parece ter sido apenas um tema doutrinário, mas uma realidade relacionada à própria caminhada cristã. O mesmo pastor que estudava, pregava e recorria a autores como Spurgeon também cultivava uma vida intensa de oração e busca pela presença de Deus.
Matschulat faleceu em 21 de setembro de 1976, depois de uma longa trajetória ministerial. Sua história, entretanto, permanece relevante. Ela nos lembra que existem capítulos da história do cristianismo brasileiro que ainda precisam ser recuperados e conhecidos.
Matschulat talvez não esteja entre os personagens mais lembrados quando se conta a história do pentecostalismo no Brasil. Contudo, o registro de sua experiência com o Espírito Santo o coloca entre as antigas referências de manifestações pentecostais em território brasileiro.
Resgatar sua trajetória não significa reescrever a história conhecida do pentecostalismo brasileiro, mas ampliá-la. Antes de ser apenas a história de instituições, denominações e grandes líderes, a história pentecostal também é formada por experiências de fé, oração e busca por Deus. E, entre essas experiências, encontra-se a de um pastor batista alemão chamado Frederico Matschulat.
Referência bibliográfica
ARAÚJO, Isael de. História do movimento pentecostal no Brasil: o caminho do pentecostalismo brasileiro até os dias de hoje. Rio de Janeiro: CPAD, 2016.
Ediudson Fontes (@ediudsonfontes) é pastor auxiliar da Assembleia de Deus Cidade Santa (RJ), teólogo, pós-graduado em Ciências da Religião e mestrando em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio. Escritor, professor de Teologia, casado com Caroline Fontes e pai de Calebe Fontes.
* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
Leia o artigo anterior: Frederico Matschulat: experiência pentecostal esquecida na história brasileira – Parte 1
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