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Negros

Se não fosse a cor da pele não haveria diferença alguma, afinal fisicamente debaixo da pele é tudo igual.

fonte: Guiame, Kely Nascimento

Atualizado: Quarta-feira, 10 Junho de 2020 as 3:47

(Foto: Pixabay)
(Foto: Pixabay)

O grito de dor que se ouvia das senzalas, hoje se ouve das favelas.

O choro da mãe que teve seu filho tirado dos braços pelos senhores brancos, continua sendo as lágrimas da mãe que teve seu filho tirado dos braços, pelas balas das armas que se cruzam no palco da violência ou pela indiferença da patroa branca.

As marcas na alma enquanto eram açoitados no tronco eram maiores do que as feridas abertas que ficavam em seu corpo nu, impotente pra se defender de tamanha covardia e crueldade.

As marcas na alma enquanto são sufocados com o joelho no pescoço, não terão como ser curadas, porque a maldita violência continua levando a morte.

As mulheres eram estupradas pelos mesmos homens nojentos que depois as açoitava. Muitas vezes na frente de seus maridos e seus filhos, que não podiam fazer nada.

Hoje, as mulheres são estupradas pelo mesmo tipo de homem nojento que também acha que tem direito de usá-la.

Trabalhavam de sol a sol, debaixo de humilhação e menosprezo: “Você tem sorte de ter comida e água, muito animal nem isso tem.” Hoje, as palavras têm o mesmo menosprezo e crueldade: “Você já pode até ir pra faculdade, seja grato por isso e para de ser mais um vagabundo criando confusão.”

Eu nunca senti na pele essa dor. Essa dor que eles sentiram, e continuam sentindo, por um único absurdo motivo: são negros.

Se não fosse a cor da pele não haveria diferença alguma, afinal fisicamente debaixo da pele é tudo igual.

Esse canto de dor precisa explodir do peito e dar espaço para o coração entoar a melodia que vai atravessar mares e oceanos, levando a notícia da conquista, da verdadeira liberdade.

Chega de mais textos como esse que estou lendo agora, cheio de palavras de impacto e que depois, não mudam nada.

Chega de olhar o jovem negro que vem de bermuda, camiseta e boné e por medo atravessar a rua, afinal tem perfil de bandido. Como se não existissem bandidos de todas as cores e raças.

Chega de fechar o vidro do carro quando para no semáforo e vê que ao lado tem um carro ou uma moto com um homem negro dirigindo.

Chega de achar que porque é negro tem que saber cantar, sambar e ser bom de cama.

Você é negra e não sabe sambar? Negro e não canta? Duvido. Mas dizem que o sexo é maravilhoso, vou pagar pra conferir se é verdade.

Que evolução humana tão enaltecida é essa e propagada aos quatro cantos da terra, mas que não consegue entender que somos todos iguais?

Seja a pele da cor que for, que possamos aprender como mudar nossas atitudes para que essas atrocidades acabem.

Que possamos semear o amor pra que esse ódio seja extirpado.

Que as manchetes de tantas mortes e violência possam ser trocadas por anúncios de um novo tempo.

Um tempo de vida e de paz.

Um tempo de viverem a conquista dos seus direitos garantidos e serem cidadãos respeitados por todos.

Vidas importam. Vidas negras importam. 

Que Deus nos abençoe.

Por Kely Nascimento, cristã, atriz, escritora, produtora de teatro e presidente do Instituto Renascimento. É ativista para a causa doação de órgãos no Brasil, com reconhecimento do Ministério da Saúde.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Os artistas invisíveis na pandemia do Covid-19

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