Matheus Grismaldi

Matheus Grismaldi

Matheus Grismaldi é escritor, missionário e assessor de comunicação & imprensa em Angola, África. Também integra equipe de plantações de Igrejas, dedica-se ao discipulado e apaixonado pelo Evangelho.

A cultura da urgência está mudando a forma como vivemos

A cultura da urgência nos leva a viver sob pressão constante, enquanto a fé cristã ensina que há processos que exigem tempo, espera e confiança em Deus.

Fonte: Guiame, Matheus GrismaldiAtualizado: quarta-feira, 23 de setembro de 2026 às 16:38
(Imagem ilustrativa gerada por IA)
(Imagem ilustrativa gerada por IA)

Há alguns anos, esperar era uma parte natural da vida. Esperávamos uma carta, uma fotografia, uma ligação, uma viagem, uma resposta. Algumas coisas simplesmente demoravam. Não havia outra alternativa.

Hoje, a espera ganhou um novo significado.

Uma mensagem sem resposta durante algumas horas pode gerar preocupação. Um vídeo que demora para carregar parece um problema. Uma empresa que leva alguns dias para responder pode ser considerada ineficiente. Notícias são acompanhadas quase em tempo real e decisões são frequentemente tomadas sob a pressão de acontecimentos que acabaram de acontecer.

A tecnologia encurtou distâncias, acelerou processos e tornou inúmeras tarefas mais simples. O problema começa quando essa velocidade deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a determinar o ritmo da nossa existência.

Tudo parece urgente. Precisamos responder agora. Decidir agora. Publicar agora. Crescer agora. Resolver agora. Saber agora. Até a reflexão parece ter perdido espaço para a reação.

Existe uma consequência silenciosa nisso: algumas das coisas mais importantes da vida não funcionam na velocidade que aprendemos a esperar.

Confiança demora para ser construída. Conhecimento exige estudo. Um relacionamento precisa de convivência. Uma carreira consistente é resultado de anos. Caráter não se forma em uma semana. Uma ferida emocional não desaparece porque decidimos que já passou da hora de superá-la.

Há processos que não podem ser acelerados sem serem prejudicados. Ainda assim, a cultura contemporânea frequentemente apresenta a demora como um problema a ser eliminado.

Precisamos otimizar o tempo, aumentar a produtividade, reduzir intervalos e aproveitar cada minuto. O próprio descanso passou a ser tratado como uma ferramenta para voltar a produzir melhor.

É uma inversão curiosa: até quando paramos, existe uma expectativa de que a pausa tenha alguma utilidade.

A Bíblia apresenta outra compreensão do tempo. As Escrituras não tratam a espera simplesmente como um intervalo vazio entre aquilo que queremos e aquilo que finalmente acontecerá. Em diferentes momentos, esperar faz parte da formação de uma pessoa.

Abraão esperou. José passou por um longo processo antes de ocupar a posição que imaginamos quando conhecemos sua história. Moisés passou décadas no deserto antes de retornar ao Egito. Davi foi ungido rei muito antes de assumir o trono.

A narrativa bíblica está cheia de processos que não cabem em uma cultura de resultados imediatos. Isso não significa que toda demora seja uma mensagem de Deus ou que devamos romantizar a espera. Há atrasos que são consequência de erros, injustiças ou circunstâncias concretas que precisam ser enfrentadas. A fé cristã não exige passividade diante daquilo que pode e deve ser transformado.

Mas existe uma verdade que a pressa contemporânea frequentemente esquece: nem tudo o que é importante pode ser produzido rapidamente.

Cristo também não conduziu sua vida pela lógica da urgência permanente.

Os Evangelhos registram momentos em que Jesus se retira das multidões. Há momentos de silêncio, oração e deslocamento. Em determinadas situações, Ele parece deliberadamente não se submeter à pressão das expectativas das pessoas ao redor. Isso não significa ausência de propósito. Pelo contrário. Existe uma diferença entre viver com propósito e viver reagindo a toda demanda.

A velocidade pode ser útil. A pressa nem sempre é.

Uma pessoa pode estar ocupada durante todo o dia e ainda assim não estar caminhando na direção certa. Pode responder a todas as mensagens e negligenciar a conversa que realmente importava. Pode cumprir todas as metas e não perceber que deixou de prestar atenção às pessoas que estavam ao seu lado.

A questão não é fazer menos por princípio. É recuperar a capacidade de distinguir o que realmente merece urgência.

Existe sabedoria em saber quando agir e também em saber quando esperar. Isso é particularmente difícil porque a espera nos confronta com aquilo que não controlamos.

Enquanto estamos ocupados, temos a sensação de que estamos avançando. Quando precisamos esperar, somos obrigados a reconhecer que algumas coisas não dependem exclusivamente de nós. A fé cristã não elimina essa tensão. Ela oferece uma maneira diferente de atravessá-la.

Confiar em Deus não significa acreditar que tudo acontecerá no momento que desejamos. Significa reconhecer que nossa percepção do tempo é limitada e que a providência de Deus não precisa se ajustar à nossa ansiedade.

O Salmo 27 registra uma das afirmações mais conhecidas sobre essa disposição: “Espera no Senhor. Seja forte!”.

Há coisas que precisam de tempo porque nós também precisamos de tempo. Tempo para compreender. Tempo para amadurecer. Tempo para ouvir. Tempo para construir. Tempo para reconhecer o que realmente importa.

E, acima de tudo, tempo para lembrar que a vida não perde o sentido simplesmente porque não está acontecendo na velocidade que imaginamos.

 

Matheus Grismaldi (@ogrismaldi) é jornalista, escritor e missionário em Angola, África. Autor de Simplificando a Paternidade de Deus, é idealizador do Clube Logos, projeto dedicado à literatura cristã e à construção de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Quando foi que desaprendemos a ouvir?

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