
Matheus Grismaldi é escritor, missionário e assessor de comunicação & imprensa em Angola, África. Também integra equipe de plantações de Igrejas, dedica-se ao discipulado e apaixonado pelo Evangelho.

As eleições passam, os resultados são anunciados e, durante alguns dias, a política ocupa boa parte das conversas. Depois, a vida segue. Os candidatos voltam para suas agendas, os partidos começam a pensar na próxima disputa e boa parte da população retoma a rotina. Para o cristão, entretanto, a relação com a política não termina quando as urnas fecham. Ela continua na forma como ele compreende a sociedade, exerce sua cidadania e reage diante das questões que afetam a vida coletiva.
Existe uma dificuldade recorrente nesse assunto. Alguns cristãos acreditam que envolver-se com política significa necessariamente comprometer a fé. Outros chegaram ao extremo oposto e passaram a tratar determinadas posições políticas como uma espécie de extensão natural do cristianismo. Entre esses dois caminhos existe uma posição mais madura, que reconhece a responsabilidade do cristão na sociedade sem transformar o Evangelho em instrumento de disputa partidária.
A fé influencia a maneira como enxergamos o mundo. Isso inclui a maneira como compreendemos justiça, verdade, autoridade, liberdade, responsabilidade, dignidade humana e cuidado com o próximo. Ser cristão não significa deixar essas convicções na porta da igreja antes de entrar na vida pública. A própria Bíblia apresenta homens e mulheres de fé vivendo em sociedades complexas, ocupando diferentes posições e lidando com autoridades que muitas vezes estavam longe dos valores que professavam.
Ao mesmo tempo, existe uma diferença importante entre permitir que a fé oriente nossas convicções e transformar uma preferência partidária em uma exigência religiosa. A igreja não deveria funcionar como diretório de partido, assim como o púlpito não deveria ser utilizado para transformar candidatos em representantes oficiais da vontade de Deus. O cristão pode votar, participar de partidos, candidatar-se, ocupar cargos públicos, defender ideias e discordar de governos. Nada disso precisa ser confundido com a missão específica da igreja.
Essa distinção se torna ainda mais necessária quando percebemos como facilmente a política pode ocupar um lugar exagerado na identidade de uma pessoa. Há quem passe a enxergar cada acontecimento através da lente do partido que escolheu. Um político é defendido mesmo quando erra, enquanto o adversário é condenado mesmo quando acerta. A discussão deixa de ser sobre ideias e passa a ser sobre pertencimento.
O cristão deveria conservar uma liberdade que a polarização política frequentemente tenta retirar. Ele precisa ter condições de reconhecer uma decisão correta tomada por alguém de quem discorda e também de denunciar um erro cometido por alguém em quem votou. Isso exige consciência e, sobretudo, disposição para submeter as próprias preferências a princípios que sejam maiores do que elas.
Jesus não chamou seus discípulos para construir uma estrutura partidária. Também não os chamou para viver indiferentes ao mundo ao redor. Quando falou sobre serem sal da terra e luz do mundo, apresentou uma responsabilidade que ultrapassa os limites de uma reunião religiosa. A presença cristã na sociedade deveria produzir alguma diferença na maneira como lidamos com pessoas, responsabilidades e problemas concretos.
Por isso, a omissão também merece ser examinada. Há momentos em que permanecer em silêncio pode ser prudência. Há outros em que o silêncio representa apenas comodidade. Não participar de nenhuma discussão, não acompanhar os acontecimentos e não exercer responsabilidade cidadã não torna automaticamente alguém mais espiritual. Da mesma forma, falar sobre tudo, reagir a tudo e transformar qualquer acontecimento político em uma batalha espiritual também não demonstra maturidade.
O desafio está em participar sem transformar a política em religião. Está em defender convicções sem transformar quem pensa diferente em inimigo. Está em reconhecer que governos passam, partidos mudam e candidatos são substituídos, enquanto os princípios que orientam a consciência cristã precisam permanecer.
A fé não exige que o cristão abandone a vida pública. Ela exige que ele entre nela sem perder de vista quem é e a quem pertence. Depois das eleições, os problemas continuam. A pobreza, a injustiça e a corrupção continuam exigindo resposta e nós podemos ser essa resposta. A política continua sendo uma parte importante da sociedade, mas ela não pode ocupar o lugar que pertence a Deus.
O cristão pode ter uma posição política. O que ele não deveria ter é uma posição política acima de sua fé.
Matheus Grismaldi (@ogrismaldi) é jornalista, escritor e missionário em Angola, África. Autor de Simplificando a Paternidade de Deus, é idealizador do Clube Logos, projeto dedicado à literatura cristã e à construção de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras.
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