Matheus Grismaldi

Matheus Grismaldi

Matheus Grismaldi é escritor, missionário e assessor de comunicação & imprensa em Angola, África. Também integra equipe de plantações de Igrejas, dedica-se ao discipulado e apaixonado pelo Evangelho.

Quando até o descanso precisa provar que foi produtivo

Existe uma ideia silenciosa que atravessa boa parte da vida adulta: precisamos ser úteis.

Fonte: Guiame, Matheus GrismaldiAtualizado: quinta-feira, 1 de outubro de 2026 às 16:28
(Imagem ilustrativa gerada por IA)
(Imagem ilustrativa gerada por IA)

No trabalho, queremos ser reconhecidos pela nossa capacidade. Nas relações, gostamos de sentir que fazemos diferença. Dentro da família, encontramos identidade nas responsabilidades que assumimos. Na sociedade, admiramos pessoas que produzem, lideram, resolvem problemas e acumulam conquistas.

Ser competente é bom. Trabalhar com excelência é importante. Ter responsabilidades e contribuir para a vida de outras pessoas faz parte de uma existência saudável. O problema aparece quando confundimos utilidade com valor. 

Um profissional pode passar anos construindo uma carreira e, quando perde o cargo, experimentar uma crise que ultrapassa a questão financeira. Um empresário pode deixar de ocupar uma posição de influência e sentir que perdeu parte da própria identidade. Um pai ou uma mãe pode perceber, quando os filhos crescem, que uma função que durante décadas organizou sua vida já não ocupa o mesmo espaço.

Até o envelhecimento pode ser encarado como uma espécie de perda de relevância em uma cultura fascinada pela juventude, pela produtividade e pela velocidade.

Existe uma pergunta escondida em tudo isso: se eu deixar de produzir aquilo que produzo hoje, continuarei sabendo quem sou?

É uma questão desconfortável porque grande parte da nossa identidade contemporânea é construída em torno de funções e desempenho.

Uma criança não precisa produzir para ter valor. Uma pessoa idosa não perde dignidade porque já não consegue trabalhar como antes. Alguém desempregado não se torna menos humano porque está fora do mercado. Uma pessoa que não possui influência ou status continua carregando a mesma dignidade.

Essa visão parece simples, mas contraria uma lógica bastante presente na sociedade. Estamos acostumados a perguntar o que alguém faz antes de perguntar quem alguém é.

Até os relacionamentos podem ser contaminados por essa lógica. Aproximamo-nos de determinadas pessoas porque elas podem abrir portas, oferecer oportunidades, ampliar nossa rede ou aumentar nosso prestígio. Quando a utilidade desaparece, a proximidade muitas vezes desaparece junto.

Quando o valor não depende da utilidade

Jesus se moveu na direção oposta. Os Evangelhos estão repletos de encontros com pessoas que não representavam grandes vantagens sociais. Doentes, pobres, crianças, estrangeiros, pecadores, pessoas marginalizadas e indivíduos que não possuíam posição relevante aos olhos das estruturas de poder encontraram espaço diante dele.

Cristo não precisava que aquelas pessoas fossem úteis para reconhecê-las como dignas de atenção. Essa é uma das características mais subversivas do Evangelho e que contraria a lógica humana. 

No Reino de Deus, o valor de uma pessoa não começa quando ela se torna produtiva. Isso não significa que produtividade seja irrelevante. O próprio cristianismo valoriza trabalho, responsabilidade, serviço e excelência. O problema está em fazer dessas coisas a medida definitiva do ser humano.

Quando isso acontece, a vida se torna uma espécie de currículo permanente. Precisamos provar constantemente que merecemos estar onde estamos. E essa lógica cobra um preço alto.

As empresas mudam. Os cargos passam. Os corpos envelhecem. Os filhos crescem. Novas pessoas chegam. Tecnologias substituem funções. Circunstâncias econômicas transformam profissões. A influência que hoje parece enorme pode desaparecer rapidamente.

Se nossa identidade estiver apoiada exclusivamente naquilo que conseguimos fazer, cada mudança será uma ameaça existencial.

Ele não nos chama para uma vida sem responsabilidade, mas para uma identidade que não depende da performance. Antes de sermos aquilo que fazemos, somos criaturas diante do Criador. E, para aqueles que estão em Cristo, existe ainda uma realidade mais profunda: a identidade não precisa ser validada através da aprovação das pessoas. Uma sociedade que compreende isso começa a enxergar a vida com uma outra percepção. No fundo, essa discussão não é apenas sobre os outros.

Não precisamos passar a vida inteira tentando provar que merecemos ser importantes. Podemos trabalhar, servir, construir e contribuir sem transformar essas coisas na fonte do nosso valor. Existe uma diferença entre ser necessário para uma função e ser valioso como pessoa.

A primeira condição pode mudar. A segunda não depende dela.

E talvez uma das maiores evidências de uma vida verdadeiramente transformada por Cristo seja justamente essa: continuar trabalhando com excelência sem precisar transformar o próprio desempenho em identidade; continuar servindo sem precisar ser indispensável; continuar construindo sem esquecer que aquilo que fazemos é parte da nossa história, mas não pode definir toda a nossa história.

 

Matheus Grismaldi (@ogrismaldi) é jornalista, escritor e missionário em Angola, África. Autor de Simplificando a Paternidade de Deus, é idealizador do Clube Logos, projeto dedicado à literatura cristã e à construção de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: A cultura da urgência está mudando a forma como vivemos 

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