
Matheus Grismaldi é escritor, missionário e assessor de comunicação & imprensa em Angola, África. Também integra equipe de plantações de Igrejas, dedica-se ao discipulado e apaixonado pelo Evangelho.

As imagens que chegam do Nepal depois das fortes inundações provocadas pelo colapso de uma massa de gelo e detritos no Himalaia pertencem a essa segunda categoria. A tragédia atingiu comunidades próximas à fronteira com o Tibete, destruiu estradas, pontes, casas e estruturas de infraestrutura e deixou um número elevado de mortos e desaparecidos. As equipes de resgate continuam enfrentando dificuldades para chegar às regiões mais isoladas.
Existe algo particularmente desconcertante em observar uma tragédia natural. Ela nos lembra, de maneira quase brutal, que há coisas que não controlamos. Construímos, planejamos, organizamos e projetamos o futuro como se a estabilidade fosse uma condição permanente. Até que um acontecimento inesperado nos lembra que não é.
Uma enchente pode mudar uma cidade. Uma doença pode mudar uma família. Uma demissão pode mudar uma trajetória profissional. Uma perda pode reorganizar uma vida inteira. Nem sempre existe aviso prévio, e nem sempre conseguimos compreender por que determinadas coisas acontecem.
Quando tudo está funcionando, é fácil acreditar que estamos seguros. Temos nossos planos, nossas reservas, nossos relacionamentos, nosso trabalho e aquilo que conquistamos ao longo dos anos. São coisas importantes, mas nenhuma delas foi feita para carregar o peso de uma vida inteira.
Jesus utilizou uma imagem muito simples para falar sobre isso. Ao terminar o Sermão do Monte, contou a história de dois homens que construíram suas casas. As duas pareciam adequadas. A diferença só apareceu quando vieram a chuva, os rios e os ventos.
A tempestade não escolheu uma casa e poupou a outra. As duas foram atingidas. O que determinou o resultado foi o fundamento.
Essa passagem de Mateus 7 é muitas vezes utilizada para falar sobre obediência, e com razão. Mas ela também nos confronta com uma realidade que nem sempre queremos admitir: uma vida pode parecer muito firme até o momento em que é colocada à prova.
Estar firmado em Cristo não significa viver protegido de todas as circunstâncias. A fé não transforma alguém imune à dor. Pessoas que amam a Deus também enfrentam perdas, luto, enfermidades, injustiças e dificuldades que não conseguem controlar.
A promessa cristã não é a ausência da tempestade. É a existência de um fundamento que não depende dela.
Quando Cristo é o fundamento, nossa esperança não está condicionada ao fato de tudo dar certo. Não precisamos acreditar que o próximo acontecimento necessariamente será favorável para continuar confiando. A nossa fé não repousa na previsão de um cenário, mas em uma pessoa.
O mundo ao nosso redor muda constantemente. A economia muda. As relações mudam. As circunstâncias mudam. Nós mudamos. Há coisas que hoje parecem permanentes e que amanhã podem não estar mais aqui.
Talvez seja essa uma das verdades mais importantes para lembrar diante de uma notícia como a do Nepal e de tantos outros acontecimentos da história. É fato que não devemos usar o sofrimento de outras pessoas como uma ilustração conveniente para nossas próprias lições. Mas, ao olhar para o cenário, também podemos ser confrontados com a nossa própria fragilidade.
Não sabemos qual será a próxima tempestade. Não sabemos quais circunstâncias teremos de enfrentar. Não sabemos quanto do que hoje consideramos seguro permanecerá exatamente como está. Mas podemos decidir onde e como construir.
A casa sobre a rocha não é aquela que nunca enfrenta ventos fortes. É aquela que possui um fundamento capaz de permanecer quando eles chegam.
E talvez seja isso que significa estar firmado em Cristo: não viver sob a ilusão de que nada poderá nos atingir, mas se apegar naquele que continua sendo fiel mesmo quando os fatores externos já não oferecem a mesma segurança.
Há coisas que podem ruir. Há cenários que podem mudar. Há dias em que não teremos respostas, entretanto, Cristo continua sendo a rocha inabalável.
Matheus Grismaldi (@ogrismaldi) é jornalista, escritor e missionário em Angola, África. Autor de Simplificando a Paternidade de Deus, é idealizador do Clube Logos, projeto dedicado à literatura cristã e à construção de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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