Cristã é morta por falar de Deus a traficantes; delegada aponta “intolerância religiosa”

Na tentativa de combater a criminalidade, uma evangélica é assassinada por dois homens enquanto chegava em casa.

Fonte: Guiame, com informações de Agência Cenarium e Em TempoAtualizado: quinta-feira, 23 de dezembro de 2021 14:02
Corpo de Idalina aguardando ser retirado pelas autoridades. (Foto: Captura de tela/Facebook/Portal Em Tempo)
Corpo de Idalina aguardando ser retirado pelas autoridades. (Foto: Captura de tela/Facebook/Portal Em Tempo)

Idalina Ferreira Marques, uma aposentada de 57 anos, foi morta com um tiro na cabeça na noite de terça-feira (21), na zona Sul de Manaus, no Amazonas. Segundo policiais, a mulher era conhecida na região por falar de Deus aos traficantes, na tentativa de tirá-los da criminalidade e convertê-los ao Evangelho.

Conforme a delegada Débora Mafra, titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM), a morte de Idalina foi classificada como uma intolerância religiosa e à mulher. 

“Fico triste com um fato desse por ver a intolerância religiosa e a intolerância à mulher, porque, na verdade, eles cometem esse crime sabendo que uma mulher, geralmente, é indefesa e não tem a força física deles, ainda mais uma pregadora da palavra de Deus querendo fazer com que as pessoas mudem seus comportamentos e seus caminhos”, declarou.

Sobre a vítima

De acordo com informações da Agência Cenarium, Idalina Marques era uma moradora antiga do bairro Colônia Oliveira Machado, onde viveu cerca de 50 anos, no Beco São Geraldo.

Os vizinhos da vítima, que não se identificaram por razões de segurança, disseram que a aposentada “costumava frequentar uma igreja evangélica e, pelas ruas, pregava a palavra de Deus”. 

A mulher também era contra o tráfico e consumo de entorpecentes no beco onde vivia e cuidava sozinha da mãe de 95 anos. “Ela sempre estava em comunhão com a igreja. Aqui era muito perigoso para ela. A única certeza que eu tenho é que ela já está com Deus e o Senhor já a recebeu”, disse outra vizinha.

“Ela alugava quitinetes e era reconhecida pelas ações sociais que fazia, mas infelizmente aqui só tem ‘gente da pesada’. A morte não diz a hora que vem, é uma perda muito grande”, relatou também a irmã da vítima, Valdemarina Souza, de 71 anos.

Idalina estava chegando em casa quando dois homens a abordaram e a mataram com um tiro. Segundo o registro de ocorrências do Instituto Médico Legal (IML), a mulher não resistiu a uma hemorragia cerebral ocasionada pelo uso da arma de fogo. O caso é investigado pela Delegacia Especializada de Homicídios e Sequestros (DEHS).

“Ela batia de frente com o tráfico de drogas”

Segundo o subtenente L. Pereira, da 2ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom) da Polícia Militar do Amazonas (PM-AM), moradores relataram que o fato de Idalina intervir e confrontar os traficantes teria começado a gerar uma irritação por parte dos envolvidos com a venda e o consumo de drogas no beco.

“Ela batia de frente com o tráfico de drogas no local, o consumo de drogas aqui também. Ela fechava a passagem [do beco] e, por ser evangélica, tentava converter os traficantes e isso causou uma certa irritação”, declarou o subtenente em entrevista à imprensa.

Os suspeitos de cometerem o crime ainda não foram identificados. Apesar de haver uma câmera de vigilância em uma casa no local do assassinato, os moradores informaram que ela não funciona.

“Fatos como esses não podem ficar impunes. Que essas pessoas possam ser descobertas, suas identidades reveladas, que haja um inquérito policial onde o juiz possa ter a melhor decisão”, disse ainda a delegada.

Intolerância religiosa no Brasil

Embora a liberdade religiosa no Brasil seja garantida pela Constituição Federal, de acordo com o Ministério dos Direitos Humanos, esse tipo de crime ocorre frequentemente no país.

Só no ano de 2018, 506 casos de intolerância religiosa foram registrados, entre eles 23 contra evangélicos e 31 contra testemunhas de Jeová.

Em Manaus, conforme a Delegacia Especializada em Ordem Política e Social (Deops), da Polícia Civil do Amazonas, em cinco anos, 10 ocorrências de discriminação religiosa foram registradas na capital amazonense (dados de 2019). 

Na última quinta-feira (16), o Guiame publicou uma matéria informando que um projeto de lei que proíbe evangelismo em espaços públicos está tramitando na Alerj (Assembleia Estadual do Rio de Janeiro). 

A proposta é contrária à liberdade religiosa e vários pastores se manifestaram contra o que consideram “um absurdo”. O deputado Samuel Malafaia se manifestou em suas redes sociais. “Vou lutar com todas as forças para que este projeto de lei não vingue na Assembleia Legislativa”, afirmou o parlamentar.

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