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Polícia quer ouvir alunos hostilizados em jornal por beijo gay na USP

Polícia quer ouvir alunos hostilizados em jornal por beijo gay na USP

Atualizado: Terça-feira, 27 Abril de 2010 as 12

A Polícia Civil de São Paulo quer ouvir o depoimento dos dois alunos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP que foram hostilizados pelo jornal "O Parasita", produzido por estudantes da farmácia. Os dois foram xingados por se beijarem numa festa universitária em 2009. No artigo do periódico eletrônico (assinado por "Joãozinho Zé-Ruela", pseudônimo do autor, e distribuído recentemente na internet), os jovens são descritos como "2 viadinhos" (leia íntegra abaixo). Os nomes deles não são citados. O texto ainda convoca outros universitários a jogar fezes em gays em troca de ingressos gratuitos para a tradicional "Festa Brega" do curso.

A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) instaurou inquérito na segunda-feira, dia 26, para apurar a suspeita de o jornal ter incitado demais alunos ao crime de injúria. "O Parasita" ainda é investigado por homofobia pela Comissão Processante Especial da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania. A secretaria também afirma ter encaminhado um ofício do Ministério Público pedindo para acompanhar o caso.

"Precisamos localizar esses dois alunos que foram insultados pelo jornal por se beijarem numa festa. Ninguém pode discriminar ninguém que beija outra pessoa do mesmo sexo em local público. Isso é homofobia e foi deste modo que ‘O Parasita’ tratou esse casal homossexual", afirmou ao G1 a delegada Margarette Barreto.

Leia na íntegra o polêmico artigo publicado pelo "O Parasita":

"Lançe-merdas e Brega será na Faixa - Ultimamente nossa gloriosa faculdade vem sendo palco de cenas totalmente inadmissíveis. Ano passado, tivemos o famoso episódio em que 2 viadinhos trocaram beijos em uma festa no porão de med. Como se já não bastasse, um deles trajava uma camiseta da Atlética. Porra, manchar o nome de uma instituição da nossa faculdade em teritório dos medicus não pode ser tolerado. Na última festa dos bixos, os mesmos viadinhos citados acima, aprontaram uma pior ainda. Os seres se trancaram em uma cabine do banheiro, enquanto se ouviam dizeres do tipo "Aí, tira a mão daí." Se as coisas continuarem assim, nossa faculdade vai virar uma ECA. Para retornar a ordem na nossa querida Farmácia, O Parasita lança um desafio, jogue merda em um viado, que você receberá, totalmente grátis, um convite de luxo para a Festa Brega 2010. Contamos com a colaboração de todos. Joãozinho Zé-Ruela".

Aluno hostilizado

No sábado (24), a reportagem conseguiu localizar e conversar com um dos alunos citados no texto acima e que a polícia também pretende ouvir. Por telefone, o jovem, que tem mais de 20 anos, e só aceitou falar com a reportagem sob a condição de anonimato, estuda farmácia e, apesar de ter sido hostilizado no jornal, afirmou que vai continuar na faculdade em São Paulo.

"Quem escreveu essas coisas deve ser punido. Não gostei do que foi escrito. Eu sou revoltado com preconceito. Isso, no entanto, não vai impedir que eu continue a estudar farmácia na USP porque amo a faculdade", disse o estudante que beijou outro homem na Cervejada da farmácia e medicina no ano passado.

Quebra de sigilo

No domingo (25), o G1 divulgou nota do jornal "O Parasita" em que este pedia desculpas pelo comentário contra os gays, classificando o fato como "exagero cometido na última edição". O texto diz que o jornal é feito de humor, e pede ainda desculpas aos alunos da faculdade. A identidade dos editores do periódico ainda é desconhecida.

A polícia informou nesta segunda que vai pedir à Justiça a quebra dos sigilos de e-mail e do Orkut de "O Parasita". O objetivo da Decradi é identificar e localizar os responsáveis pelo periódico eletrônico.

"Vamos localizar quem fez a publicação a partir da quebra do sigilo destas contas do correio eletrônico [e-mail] do jornal e da página de relacionamentos [Orkut] que ele mantém", afirmou Margarette.

O assunto também chegou à Coordenadoria do Núcleo de Combate à Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria Pública, que protocolou um pedido de instauração de inquérito policial para saber quem são os responsáveis pelo jornal.

Na esfera criminal, os responsáveis pelo artigo podem ser presos por até seis meses, caso sejam considerados culpados. Na comissão, poderão ser multados. O valor mínimo é de R$ 15 mil.

A reportagem enviou dois e-mails para o correio eletrônico de "O Parasita", mas não obteve resposta.

Outro lado

A Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP informou na segunda que também vai instaurar uma sindicância administrativa para apurar os responsáveis pelo jornal "O Parasita". De acordo com a assessoria de imprensa da instituição, a abertura da sindicância é orientada pela consultoria jurídica da USP. Além disso, a faculdade ressaltou em nota que "não apoia o artigo publicado recentemente pelo jornal ‘O Parasita’ e desconhece seus autores".

"Repudiamos o que ocorreu. Apesar de não sermos responsáveis pelo jornal, queremos discutir uma maneira de pedir desculpas aos alunos. Não vamos delegar punições aos responsáveis. Isso caberá à faculdade e à polícia", afirmou Guilherme Loverbeck, de 20 anos, segundo anista do curso de farmácia, representante da atlética.

Em nota, o centro acadêmico da faculdade informou que não apoia "atitudes homofóbicas, machistas, racistas ou que expressem qualquer outro tipo de preconceito". O texto disse ainda que as diferenças são respeitadas, pois pensamentos distintos representam "crescimento pessoal" e "aperfeiçoamento da sociedade".

Por: Kleber Tomaz

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