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Freira troca Amazônia por doentes de cólera no Haiti

Freira troca Amazônia por doentes de cólera no Haiti

Atualizado: Terça-feira, 11 Janeiro de 2011 as 1:35

Há cinco anos, quando a freira italiana Marcella Catozza, 47 anos, trocou a cidade de Parintins, no Amazonas, pelo Haiti, ela tinha como objetivo abrir uma escola.

A região escolhida foi Waf Jérémie, uma das partes mais pobres da favela de Cité Soleil, em Porto Príncipe.

'Na primeira semana, vi 12 crianças morrerem vítimas de desnutrição', conta a missionária franciscana. 'Resolvi abrir uma clínica.'   Hoje, a pequena clínica comandada pela irmã Marcella é a esperança dos moradores da região para combater a epidemia de cólera, que já matou 3,6 mil haitianos.

O porto de Waf Jérémie é a porta de entrada para muitos dos haitianos vindos do interior para a capital. A população é calculada em 70 mil pessoas, mas Marcella diz acreditar que o número real seja o dobro.

Lixo

Assim como na maioria das favelas de Porto Príncipe, em Waf Jérémie não há saneamento. Nas vielas entre os casebres, porcos reviram o lixo enquanto crianças brincam descalças.

Nesse cenário, a epidemia de cólera se alastra. 'As condições de higiene aqui são terríveis. Eles não têm latrinas, não têm água potável. É muito fácil contrair a doença', diz a religiosa.

A clínica comandada por Marcella começou a tratar de doentes de cólera em 7 de novembro, duas semanas após o início da epidemia no país. Segundo a freira, já foram atendidas cerca de 1,5 mil pessoas.

'Nas primeiras semanas, tivemos 16 mortes', diz. 'Quando íamos às casas explicar sobre a necessidade de buscar tratamento rápido em caso de diarreia ou vômito, as pessoas riam, diziam que esses problemas são parte do dia-a-dia aqui. Tivemos de explicar que esse tipo de diarreia matava.'

Agora, segundo a missionária, os moradores já têm mais informações a respeito da doença e sobre a importância de buscar atendimento logo. Com isso, não foram registradas mais mortes.

São atendidos em média 25 pacientes por dia, divididos em três alas, de acordo com a gravidade do quadro.

Dificuldades

Além de voluntários, a equipe é formada por enfermeiras locais, que falam o crioulo haitiano - uma das duas línguas oficiais do país, junto do francês - e ajudam a orientar a população sobre cuidados de higiene para evitar o contágio.

Apesar dos esforços, Marcella admite que a luta contra a doença é difícil diante das condições de vida na favela.

'Na verdade, fiquei até surpresa que o número de pacientes seja tão pequeno. Dadas as condições em que vivem, imaginava que em duas ou três semanas a doença iria se propagar muito mais', diz a freira.

'Enquanto não houver água potável e saneamento, o problema vai continuar.'

Por iniciativa da freira italiana, casas foram construídas em Waf Jérémie

O prédio original em que a freira instalou sua clínica quando chegou ao Haiti foi destruído pelo terremoto de 12 de janeiro de 2010, assim como uma escola que funcionava ao lado e era comandada por outra irmã franciscana.

Depois do terremoto, as freiras mantiveram o atendimento em barracas, até que uma organização não-governamental italiana financiou o projeto de cólera.   Trabalho

Dos cinco anos que viveu no Brasil, Marcella trouxe a experiência do trabalho com crianças de rua. O centro educacional que comandava em Parintins atendia 700 jovens.

No Haiti, além da clínica e da escola - que está sendo reconstruída -, ela coordena outros projetos na comunidade de Waf Jérémie, como uma cozinha comunitária e a construção de 122 moradias populares, erguidas graças a doações de amigos.

Em breve, a italiana pretende iniciar um programa profissionalizante para jovens, ensinando os adolescentes da região a trabalhar em carpintaria, padaria e outros ofícios.

'O maior problema ainda é a falta de emprego', diz Marcella. A taxa de desemprego no Haiti chega perto de 80%.

'Eles precisam de trabalho. Não está certo deixá-los dependendo de nós (voluntários e organizações de assistência)', afirma.

Ao comentar a situação um ano depois do terremoto, a freira diz que, em Waf Jérémie, a tragédia acabou significando uma oportunidade de mudança.

'Antes não havia nada aqui. Agora eles têm escola, casas e atendimento de saúde', diz. 'Mas no resto do país, só mudou para pior.'    

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