
Pastor auxiliar da Assembleia de Deus Ministério Cidade Santa no RJ. Bacharel pela Fateos. Pós-graduação em Ciência das Religiões. Mestrado em Teologia Sistemática pela Fateos. Professor de Teologia, escritor e consultor teológico. Autor de “Panorama da T

Às vésperas de mais uma eleição, somos novamente convidados a refletir sobre a relação entre fé, cidadania e participação política. No próximo domingo, 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher seus representantes. Para o cristão, esse momento merece ser tratado com seriedade, consciência e responsabilidade. Vivemos em um Estado Democrático de Direito. A Constituição brasileira apresenta entre seus fundamentos a cidadania, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político, estabelecendo também que o poder emana do povo, que o exerce diretamente ou por meio de representantes eleitos. Participar da construção da sociedade, portanto, faz parte do exercício da cidadania.
Para nós, cristãos, essa responsabilidade também pode ser compreendida à luz das Escrituras. Quando Jesus declarou: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus” (Mt 22:21), estabeleceu uma importante distinção entre aquilo que pertence a Deus e as responsabilidades que assumimos na vida social. Fazer parte do Reino de Deus não significa deixar de participar da sociedade em que vivemos.
Fé e cidadania não são incompatíveis
A participação política também é uma demonstração de responsabilidade e cidadania. Como cristãos, cremos que os princípios e valores que orientam nossa fé podem contribuir para a vida em sociedade e para a promoção do bem-estar social. Fazer parte do Reino de Deus não nos retira da realidade histórica. Continuamos sendo cidadãos e, como tais, participamos da sociedade por meio de nossas famílias, profissões, igrejas, instituições e também pelo exercício do voto.
O apóstolo Paulo orientou os cristãos a intercederem “pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito” (1Tm 2:2). Há nessa orientação uma preocupação que ultrapassa os limites da própria comunidade cristã. Existe uma dimensão coletiva, relacionada às condições necessárias para uma convivência social pacífica. Por isso, nossas convicções não precisam ser abandonadas quando participamos da vida pública. O respeito à pluralidade e àqueles que pensam de maneira diferente pode caminhar juntamente com a liberdade de expressarmos aquilo em que cremos.
Fé e cidadania, portanto, não precisam ser colocadas em lados opostos.
Liberdade religiosa e respeito à diversidade. Uma das liberdades fundamentais que usufruímos no Brasil é a liberdade religiosa. A Constituição assegura a liberdade de consciência e de crença, o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos locais de culto e às suas liturgias. Essa liberdade não pertence exclusivamente aos cristãos. O Brasil é um país marcado por significativa diversidade religiosa. Cristãos de diferentes tradições convivem com pessoas pertencentes a outras religiões e também com aquelas que não professam religião alguma.
Essa diversidade faz parte da realidade brasileira e não pode ser simplesmente negada. Respeitar quem pensa diferente, entretanto, não significa abandonar aquilo em que acreditamos. É possível defender nossas convicções e, simultaneamente, respeitar a liberdade e a dignidade daqueles que possuem outras concepções. Paulo aconselha: “Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Rm 12:18). Uma sociedade democrática precisa aprender justamente isso: conviver com as diferenças sem transformar aquele que pensa de maneira diferente em inimigo.
Não precisamos esconder nossa fé para respeitar a fé ou a ausência de fé do outro. A fé não pode ser reduzida aos interesses políticos. Também precisamos reconhecer que existem problemas quando a religião é instrumentalizada para interesses políticos. A aproximação entre agentes públicos e comunidades religiosas não deveria acontecer apenas em períodos eleitorais. A fé cristã não pode ser tratada simplesmente como um instrumento para alcançar determinado segmento da população.
Da mesma maneira, erros cometidos por algumas pessoas no ambiente eclesiástico ou político não podem ser utilizados para generalizar milhões de cristãos. Precisamos reconhecer os erros quando acontecem. Se alguém utiliza a religião indevidamente, isso precisa ser analisado e criticado. Entretanto, uma comunidade religiosa ampla e diversa não pode ser definida exclusivamente pelas atitudes equivocadas de alguns de seus representantes. Nenhuma organização política é o Reino de Deus, assim como nenhum projeto humano consegue representar plenamente o Evangelho. Nossa esperança última permanece em Cristo.
Não existe cidadania sem participação
A democracia pressupõe participação. Isso não significa que todos devam pensar da mesma maneira. Pelo contrário: uma sociedade democrática pressupõe a convivência entre pessoas com diferentes concepções sobre a sociedade. O primeiro turno das Eleições Gerais de 2026 será realizado em 4 de outubro. Serão escolhidos presidente e vice-presidente da República, governadores e vice-governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais.
Diante da importância dessas funções, o voto não deveria ser tratado com indiferença. Participar responsavelmente significa informar-se, conhecer as atribuições dos cargos, observar propostas, trajetórias e compromissos públicos e compreender que as decisões tomadas hoje podem produzir consequências para toda a sociedade. Somos membros de uma comunidade de fé, mas também somos cidadãos. Essas duas dimensões não precisam ser confundidas, mas também não precisam ser separadas como se fossem incompatíveis.
Quais princípios devem orientar nossa reflexão?
A Bíblia não apresenta um programa eleitoral. Ela apresenta, entretanto, princípios que formam nossa compreensão do ser humano, da justiça e de nossa responsabilidade diante do próximo. Um deles é a dignidade da vida humana. A Escritura afirma que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26-27). O salmista reconhece a ação de Deus desde o ventre materno: “Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe” (Sl 139,13). Para a ética cristã, portanto, a vida humana possui dignidade e valor. Essa preocupação não termina no nascimento. A Escritura também nos chama a olhar para aqueles que vivem em situações de pobreza, abandono e vulnerabilidade. Provérbios recomenda: “Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados” (Pv 31:8). Tiago, por sua vez, questiona uma fé que contempla as necessidades materiais do próximo, mas nada faz para ajudá-lo (Tg 2:15-17). A preocupação cristã com a vida precisa alcançar também aqueles que passam fome, aqueles que precisam de oportunidades, os pobres e todos aqueles cuja dignidade está ameaçada.
Família, educação, justiça e liberdade
Outras questões também merecem nossa reflexão. A família possui lugar importante na compreensão cristã da sociedade. Desde Gênesis encontramos a família como espaço de relacionamento, responsabilidade e transmissão da vida. Da mesma maneira, a educação possui enorme importância para o desenvolvimento das pessoas e para o futuro de uma nação.
A própria tradição bíblica valoriza profundamente o ensino. Em Deuteronômio 6:6-7, encontramos a responsabilidade de transmitir às novas gerações aquilo que havia sido recebido. Uma sociedade que pensa em seu futuro precisa levar a educação a sério. Também precisamos pensar na justiça, na honestidade, na liberdade de consciência e no cuidado com os vulneráveis. Miqueias resume de maneira extraordinária uma dimensão dessa responsabilidade moral: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Deus” (Mq 6:8). Esses princípios não fornecem automaticamente um nome para ser digitado na urna. Eles nos ajudam, entretanto, a compreender a seriedade de nossa responsabilidade diante de Deus, do próximo e da sociedade.
Os evangélicos também fazem parte da sociedade brasileira
Existe ainda uma questão que precisa ser considerada: os evangélicos fazem parte da sociedade brasileira. Em alguns momentos, interpretações sobre a presença evangélica no espaço público são construídas a partir dos erros cometidos por determinadas pessoas ou lideranças. Esses erros, quando existem, precisam ser reconhecidos. Entretanto, não é adequado transformar casos particulares em uma descrição de toda a comunidade evangélica.
Também é necessário conhecer nossa história.
A presença protestante não começou com as disputas políticas contemporâneas. Desde a Reforma Protestante do século XVI e, posteriormente, por meio das diferentes tradições protestantes estabelecidas no Brasil, os evangélicos passaram a integrar a história religiosa e social de nosso país. Ao longo dessa trajetória, diferentes tradições protestantes estabeleceram igrejas e desenvolveram iniciativas educacionais, missionárias e sociais. Conhecer essa história é importante para evitar interpretações simplificadoras acerca da presença evangélica na sociedade. Participar da vida pública não significa desejar dominar a sociedade.
O cristão pode defender aquilo em que acredita e, ao mesmo tempo, reconhecer plenamente o direito de outras pessoas defenderem suas próprias convicções. Respeito à fé também faz parte da democracia. Nesse contexto, precisamos falar também sobre o respeito à comunidade evangélica. Em períodos eleitorais, diferentes atores públicos procuram comunidades religiosas, participam de encontros e apresentam compromissos relacionados às suas demandas. Entretanto, o respeito aos cristãos não deveria existir somente durante uma campanha eleitoral.
Os evangélicos não devem ser vistos como um problema para a sociedade simplesmente porque professam publicamente sua fé e desejam participar da vida social. Somos cidadãos. Trabalhamos, estudamos, produzimos, ensinamos, empreendemos, pagamos impostos, desenvolvemos trabalhos sociais e participamos de diferentes áreas da sociedade brasileira. Temos, portanto, o mesmo direito de participar do debate público assegurado aos demais cidadãos.
A Constituição estabelece que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença”, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos. Também determina que ninguém seja privado de direitos por motivo de crença religiosa. Por essa razão, questões relacionadas à liberdade religiosa merecem nossa atenção. Discursos, propostas e ações públicas que possam afetar a liberdade de consciência, o exercício da fé ou o funcionamento das comunidades religiosas devem ser conhecidos e examinados com responsabilidade. Não basta observar aquilo que é prometido em períodos eleitorais. A cidadania responsável também envolve buscar informações sobre posições, propostas, compromissos e ações públicas.
Isso não significa reivindicar privilégios para os evangélicos. A liberdade que desejamos para professar nossa fé deve ser igualmente assegurada às demais tradições religiosas e àqueles que não professam religião alguma. Defender a liberdade religiosa significa defender uma sociedade em que ninguém tenha seus direitos diminuídos simplesmente por causa de suas convicções.
Nossa preocupação precisa alcançar toda a sociedade
Ao mesmo tempo, nossa participação cidadã não pode estar preocupada apenas conosco. O mandamento de amar o próximo nos impede de pensar somente nos interesses de nossa própria comunidade. Precisamos olhar para a sociedade. Precisamos pensar na criança que necessita de educação de qualidade; na família que enfrenta dificuldades; naquele que está desempregado; nos pobres e vulneráveis; na segurança das pessoas; na liberdade; na justiça; na dignidade da vida humana e nas condições necessárias para que todos possam viver com dignidade. Por isso, liberdade religiosa e bem-estar social não precisam ser colocados em oposição.
É possível desejar que nossas convicções sejam respeitadas e, simultaneamente, desejar políticas e ações públicas que contribuam para o conjunto da sociedade. O exercício consciente da cidadania envolve justamente essa visão mais ampla.
O cristão e sua consciência
A pergunta fundamental, portanto, não deveria ser simplesmente qual grupo ou discurso político desperta maior identificação, mas quais princípios devem orientar a consciência cristã diante do exercício da cidadania. A dignidade e o valor da vida humana, o cuidado com os pobres e vulneráveis, a família, a educação, a proteção das liberdades fundamentais, a justiça, a honestidade no exercício do poder e a busca pelo bem comum constituem temas importantes para essa reflexão. Isso exige discernimento.
O voto não deveria ser tratado apenas como uma escolha momentânea. Estamos participando de decisões que podem afetar a educação, a economia, a segurança, a assistência social, as liberdades e diversas outras áreas da vida coletiva. Por isso, propostas, trajetórias e compromissos públicos precisam ser examinados com seriedade.
Antes de votar
Estamos diante de uma decisão que merece reflexão. Antes de votar, informe-se. Conheça as atribuições dos cargos. Examine informações públicas sobre propostas e trajetórias. Considere os compromissos apresentados e procure compreender suas possíveis consequências para a sociedade e para as liberdades fundamentais. O exercício do voto exige consciência, responsabilidade e discernimento.
Nossa fé participa da maneira como compreendemos a dignidade humana, a vida, a família, a educação, a liberdade, a justiça, o cuidado com os pobres e vulneráveis e o bem-estar da sociedade. Ao mesmo tempo, somos chamados a conviver respeitosamente com aqueles que chegam a conclusões diferentes das nossas.
O Estado democrático deve assegurar espaço para quem crê e para quem não crê. A participação dos cristãos na sociedade não significa estabelecer uma religião oficial nem reproduzir antigas formas históricas de união entre Igreja e Estado. Significa exercer cidadania dentro das mesmas garantias democráticas asseguradas aos demais brasileiros.
Nenhuma organização política é o Reino de Deus. Nenhuma liderança humana representa plenamente o Evangelho. Nosso compromisso último permanece com Cristo. Como cidadãos, somos chamados a participar conscientemente da sociedade, refletindo sobre aquilo que contribui para o bem comum e valorizando a liberdade que permite que nós e os outros expressemos nossas convicções.
Que nossa participação seja marcada pela responsabilidade, pelo respeito e pela consciência. Que a vida seja valorizada, os vulneráveis sejam cuidados, a educação seja promovida, a família seja considerada, a justiça seja buscada e as liberdades fundamentais sejam preservadas para todos. Fé e cidadania não precisam caminhar separadas. Participar responsavelmente da sociedade também é reconhecer que nossas escolhas possuem consequências para nós, para o próximo e para as futuras gerações.
Ediudson Fontes (@ediudsonfontes) é pastor auxiliar da Assembleia de Deus Cidade Santa (RJ), teólogo, pós-graduado em Ciências da Religião e mestrando em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio. Escritor, professor de Teologia, casado com Caroline Fontes e pai de Calebe Fontes.
* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
Leia o artigo anterior: A oração na perspectiva pentecostal – Parte 3
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