
Três anos após o ataque terrorista de 7 de Outubro, Israel ainda carrega as marcas daquele que se tornou o dia mais mortal para os judeus desde o Holocausto.
Em entrevista ao Guiame, o major da reserva Rafael Rozenszajn, porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI) para países de língua portuguesa, afirmou que o massacre provocou uma mudança profunda na sociedade israelense.
“O povo israelense nunca mais será o mesmo depois do massacre de 7 de Outubro”, declarou.
A conversa aconteceu na Igreja Batista em Perdizes, na zona oeste de São Paulo, onde Rafael era aguardado para uma palestra e para o lançamento de seu segundo livro, que aborda sua experiência e atuação na área de comunicação estratégica.
Brasileiro e tendo vivido metade da vida no Brasil, Rafael serviu durante 18 anos nas forças israelenses, onde atuou como promotor militar, advogado e porta-voz.
Ao recordar o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, ele destacou a dimensão da tragédia: cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 251 foram sequestradas.
“O povo israelense está ferido depois desse massacre”, afirmou.
Memória do Holocausto
Para Rafael, a dimensão do trauma também remete a uma memória profundamente presente em sua própria família. Seu avô é sobrevivente do Holocausto.
“O meu avô é sobrevivente do Holocausto e eu acho que todos que têm um parente que passou pelo Holocausto conseguem entender talvez um pouco do que aconteceu 80 anos atrás na Europa, nesse dia do 7 de Outubro”, disse.
Apesar da comparação histórica, o major ressaltou uma diferença que considera fundamental: atualmente, o povo judeu possui um Estado e forças militares capazes de defendê-lo.
“Diferentemente do Holocausto, nós temos um Exército e nós temos um Estado para garantir a eternidade do povo judeu”, declarou.
Segundo Rafael, seu avô lhe relatou que uma das maiores vulnerabilidades dos judeus durante o Holocausto era justamente a inexistência de uma força capaz de protegê-los.
“Meu avô me disse que o maior desafio é que não tinha um Exército para defender o povo judeu. Então hoje, mesmo nos momentos mais difíceis, nós sabemos que temos um país, temos um Estado e temos um Exército para garantir a nossa segurança”, afirmou.
E acrescentou: “Não faltam países que querem nos exterminar, não faltam organizações terroristas que querem eliminar o Estado de Israel do mapa, mas também não falta determinação do Exército de Israel para garantir a eternidade do povo de Israel”.
Imagens que desapareceram
Questionado pelo Guiame sobre o crescimento do antissemitismo e a mudança da percepção internacional em relação a Israel ao longo dos últimos três anos, Rafael apontou para o impacto das imagens na opinião pública.
Segundo ele, nos primeiros dias após o massacre, as cenas dos ataques provocaram forte comoção internacional.
“No 7 de Outubro, o mundo estava muito comovido com as imagens. Os vídeos que foram publicados naquele dia foram realmente imagens muito impactantes”, lembrou.
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Hamas invade Israel em 7 de outubro de 2023. (Captura de tela/YouTube/Guardian/NBC)
O porta-voz afirmou que grande parte do material registrado durante os ataques nunca foi divulgado publicamente, por respeito às vítimas e seus familiares.
“Eu posso dizer que até hoje menos de 20% do que realmente aconteceu foi publicado”, afirmou.
Rafael explicou que parte dos crimes foi registrada pelos próprios terroristas, por meio de câmeras acopladas aos equipamentos, celulares e câmeras instaladas nas casas atacadas.
“Até hoje nós não revelamos todas as imagens”, disse.
Na avaliação do major, à medida que as imagens do massacre deixaram de ocupar espaço no noticiário internacional, as cenas do sofrimento da população palestina em Gaza passaram a exercer maior influência sobre a percepção pública da guerra.
“Se eu perguntar a você quando você viu a última imagem sobre o 7 de Outubro, talvez você vai me dizer que foi três anos atrás. Ou, se eu te perguntar qual foi a última vez que você viu uma imagem de pessoas que estão pagando o preço da guerra em Gaza, você vai me dizer que hoje ou ontem você viu na televisão”, observou.
Civis em Gaza
Ao longo da entrevista, Rafael também classificou como uma “tragédia” a morte de civis palestinos durante a guerra.
“Nós não justificamos inocentes pagando por essa guerra na Faixa de Gaza. Isso é uma tragédia muito grande”, declarou.
O major argumentou, porém, que o Hamas atua em áreas civis e utiliza estruturas como casas, escolas e hospitais para fins militares, tornando o conflito ainda mais complexo.
Para Rafael, existe uma diferença fundamental entre as mortes de civis ocorridas durante operações militares e o massacre deliberado de civis em 7 de Outubro.
“O fato de ter inocentes que são feridos ou que acabam morrendo na guerra não quer dizer que eles eram alvo do Exército israelense”, afirmou.
E acrescentou: “Essa é uma guerra assimétrica. Nossos alvos são somente alvos militares terroristas. Os alvos do nosso inimigo são alvos civis”.
‘Razão e emoção’
Com quase duas décadas de experiência nas Forças de Defesa de Israel, Rafael afirmou que um dos principais desafios enfrentados atualmente é conseguir espaço para apresentar a versão israelense dos acontecimentos.
“Eu passei 18 anos no Exército de Israel. Fui promotor militar, fui advogado da Marinha, fui advogado do Comando Central e fui também porta-voz das Forças de Defesa de Israel”, contou.
Segundo ele, o problema não está apenas em explicar a posição de Israel, mas em conseguir fazer com que essas informações cheguem ao público em meio à disputa de narrativas sobre a guerra.
“O desafio é ter a oportunidade de trazer as informações, oportunidade de se comunicar com as pessoas e ajudar as pessoas a entenderem realmente o que acontece na guerra que a gente trava”, explicou.
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Para Rafael, a batalha pela opinião pública ocorre em um terreno marcado pelo confronto entre fatos e imagens emocionalmente impactantes.
“Essa guerra é, na verdade, uma tensão entre a razão e a emoção”, resumiu.
E concluiu: “Sempre que a razão prevalecer, Israel vai ganhar a guerra midiática. Sempre que a emoção prevalecer, Israel vai perder”.
Durante sua atual passagem pelo Brasil, Rafael está lançando seu segundo livro, “As 10 Leis da Comunicação Estratégica”, além de cumprir uma agenda de palestras em que aborda, prioritariamente, temas relacionados a Israel.
Na nova obra, que sucede o livro “Guerra de Narrativas”, o major apresenta princípios sobre como construir credibilidade, proteger reputações, enfrentar crises e fazer com que uma mensagem não seja apenas ouvida, mas efetivamente compreendida.
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