Jovens brasileiros se tornam cada vez mais evangélicos, diz pesquisador

Teólogo Rodolfo Capler analisa o fenômeno da adesão de grande parte dos jovens brasileiros ao segmento evangélico de corte pentecostal.

Fonte: Guiame, com informações da VejaAtualizado: terça-feira, 1 de fevereiro de 2022 14:03
Rodolfo Capler: ‘Mensagem centrada no indivíduo cativa boa parte dos fiéis mais jovens. (Foto: Reprodução / Pixabay)
Rodolfo Capler: ‘Mensagem centrada no indivíduo cativa boa parte dos fiéis mais jovens. (Foto: Reprodução / Pixabay)

O perfil dos fiéis das igrejas evangélicas tem mudado, mostrando uma face muito mais jovem do que há décadas passadas, quando se via pessoas nas faixas etárias acima dos 50 anos, majoritariamente, como seguidoras da fé evangélica.

Artigo publicado na revista Veja, com base em análise feita pelo Pr. Rodolfo Capler, escritor e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP, aponta que esse retrato está mudando para selfie. Sua conclusão é de que a juventude brasileira será cada vez mais evangélica.

O teólogo aponta que em dezembro de 2016, o Instituto DataFolha mostrou que “três em cada dez brasileiros com 16 anos ou mais atualmente são evangélicos”. Já os dados da pesquisa de 2020 do DataFolha revelam que há aproximadamente 12,4 milhões de jovens entre 16 a 24 anos que se declaram evangélicos – 13,7 milhões de jovens na mesma faixa etária se identificam com o catolicismo.

“Levando em conta que a proporção geral de católicos é maior (105,5 milhões), que a de evangélicos (65,4 milhões), e que os evangélicos não param de crescer em números, tornando-se uma ‘uma vasta nuvem’ (segundo definição do pesquisador e pastor Davi Lago), a interpretação dos dados mencionados, nos permite concluir que a juventude brasileira caminha a passos largos para se tornar predominantemente evangélica”, diz Capler, que dirige uma igreja em Piracicaba, interior paulista.

O pesquisador diz que a adesão dos jovens brasileiros ao segmento evangélico se dá prevalentemente entre aqueles que fazem parte das classes mais baixas do país e que massivamente se filiam as igrejas pentecostais e neopentecostais. De acordo com o Censo Brasileiro, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), em 2010, 60% (25,3 milhões) dos evangélicos eram pentecostais.

Capler cita pesquisa sobre os cristãos-evangélicos no Brasil, feita pelo antropólogo Juliano Spiyer em ‘Povo de Deus’, que analisa os dados demográficos observando o sucesso da fé evangélica (sobretudo a de corte pentecostal) entre os mais novos: “Considerando-se a faixa etária dos fiéis, enquanto o catolicismo é mais popular entre pessoas com 40 anos ou mais, os evangélicos pentecostais atraem mais crianças e adolescentes”, observou Spiyer. 

O teólogo diz que “essa massa de jovens se associa às igrejas evangélicas por influência de alguns fatores que se tornaram objetos de estudo entre sociólogos, antropólogos, teólogos e cientistas da religião. Um dos fatores é contextualização da mensagem da fé, que se adapta à realidade sociocultural de grande parte da juventude”. 

Autor do livro “Geração Selfie”, Capler afirma que o jovem brasileiro se sente atraído pela pregação dos pastores pentecostais – que lançam mão de estética e linguagem contextualizadas – como também pela música gospel, que desde a sua gênese, incorpora os mais variados subgêneros musicais populares. “Nas igrejas evangélicas, canta-se rap, funk, samba, sertanejo e rock – o que se constitui elemento de apropinquação com as novas gerações”, explica. 

‘Individualistas e narcisistas’

Segundo Capler, outro aspecto que aproxima os jovens brasileiros da fé evangélica é a forte ênfase discursiva no indivíduo. Segundo os apontamentos das mais recentes pesquisas geracionais realizados no mundo, os membros das gerações Y e Z são muito individualistas e narcisistas. Por essa razão, a mensagem centrada no indivíduo (que é lugar-comum no evangelicalismo brasileiro), cativa boa parte dos fiéis mais jovens.  

Outra explicação, diz Capler, é a presença social das igrejas nas periferias e rincões do Brasil, designa um dos pontos fulcrais de conexão da juventude com a religião evangélica. Conforme o antropólogo Maurício de Almeida Prado, as igrejas evangélicas oferecem às populações mais precarizadas, uma espécie de serviço social informal, ocupando os espaços abandonados pelo poder público, ou seja, elas intermediam conflitos familiares, doam cestas básicas, assistem os dependentes químicos, cuidam dos doentes e promovem a aculturação de uma massa de miseráveis. Esse processo de abraçamento dos mais vulneráveis pelos evangélicos, talvez seja o principal fator ocasionador das conversões da juventude brasileira ao segmento evangélico.

“Diante desse cenário religioso que se descortina em nosso país, surge uma importante questão: nos próximos anos o jovem brasileiro continuará se identificando com a fé evangélica? Ao que tudo indica, o crescimento do número de jovens evangélicos tende a aumentar nas próximas décadas não só nas classes mais pobres, como também nos estratos econômicos mais elevados”, acredita Capler.

Segundo ele, os desdobramentos disso serão sentidos não somente na cultura popular – que, emblematicamente, já substituiu bordões católicos outrora correntes como “Nossa senhora” e “Vixe Maria”, por expressões do mundo evangélico tais quais “Só Jesus na causa” e “O sangue de Jesus tem poder” – mas também na organização social da nação, com a promoção de maior igualdade de gênero (visto que entre os pentecostais o número de mulheres é 20% maior do que o de homens), e com o aumento a escolarização da população em virtude da disciplina da leitura conquistada a partir do convívio dentro da igreja.

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