Vídeo sobre anjos viraliza e hebraístas alertam sobre má interpretação bíblica

Segundo os especialistas, tentar descrever as visões dos profetas bíblicos de forma literal pode gerar equívocos.

Fonte: Guiame, Cris BeloniAtualizado: terça-feira, 29 de março de 2022 12:24
Representação de um “Serafim” conforme o artista digital Jonas Pfeiffer. (Foto: Captura de tela/YouTube Spectrum Cinema)
Representação de um “Serafim” conforme o artista digital Jonas Pfeiffer. (Foto: Captura de tela/YouTube Spectrum Cinema)

Um vídeo que viralizou dizendo mostrar a “verdadeira aparência dos anjos” tem sido bastante comentado pelas pessoas que tentam encontrar base bíblica para justificá-lo.

Publicado originalmente pelo canal Spectrum Cinema, no YouTube, as imagens em 3D fazem parte do trabalho de um artista digital chamado Jonas Pfeiffer. 

Na descrição, diz que as três imagens são referentes a um Querubim (Ezequiel 1.4-14), um Ofanin (Ezequiel 1.15-21) e um Serafim (Apocalipse 4.8).

Os textos bíblicos descrevem a aparência de anjos?

Segundo o vídeo, os anjos conforme a descrição bíblica são “aterrorizantes”, mas segundo o hebraísta e teólogo Luiz Sayão “a Bíblia diz que os anjos foram criados por Deus e são seres ministradores que atuam na história da redenção”, explicou em entrevista exclusiva ao Guiame.

Ao citar que existem exércitos de anjos e que há uma hierarquia no mundo celestial, Sayão também esclarece que a palavra “anjo” significa “mensageiro”. Várias vezes, a Bíblia descreve a presença deles entre os seres humanos.

“Às vezes, eles aparecem e são vistos com aparência humana. Outras vezes, são fulgurantes como no caso de seres celestiais que podem ser considerados anjos — Querubins ou Serafins — que aparecem em Isaías 6. São diferentes por possuírem seis asas”, mencionou.

Além disso, o pastor lembra que há anjos bons e maus. “Isso nos remete à questão da queda de Satanás e seus anjos. Há os que servem a Deus e os que se rebelaram contra Ele, chamados de demônios”, continuou. 

Incompreensão de alguns textos bíblicos

Sayão alerta para certos equívocos na interpretação bíblica. “Quando lemos textos de Apocalipse, Ezequiel ou Daniel, estamos diante de simbolismos. Por exemplo, a besta que sobe do mar ou da terra, não se trata de um bicho literal, mas é a descrição de uma visão”, esclareceu.

Tentar descrever as visões literalmente, segundo explica Sayão, não fará sentido. O texto, na verdade, busca explicar o papel, a função e o valor dos anjos

Para outro hebraísta, Getúlio Cidade, o que Ezequiel viu está muito além do que podia se expressar em palavras. “Eu particularmente creio que Ezequiel, assim como João em Apocalipse, tiveram dificuldade para pôr em palavras essas visões impressionantes e sobrenaturais”, disse em entrevista ao Guiame

“O que viram transcende a capacidade humana de imaginação e, principalmente, de se tentar recriar isso por meio de desenho, animação computadorizada ou qualquer outra forma de arte. Não é uma crítica a quem tenta reproduzir tais visões, apenas um comentário de que, por mais que tentem, jamais conseguirão fazê-lo com fidelidade, pois não se retrata o sobrenatural de modo natural”, continuou.

Sobre a imagem do Querubim

No vídeo, a imagem que o artista diz ser a representação bíblica de um Querubim, é na verdade um equívoco. Conforme o texto, a visão era de um ser com aparência de homem, com quatro rostos (homem, leão, boi e águia) e quatro asas, conforme descreve Ezequiel 1.4-14.


Representação de um “Querubim” conforme o artista digital Jonas Pfeiffer. (Foto: Captura de tela/YouTube Spectrum Cinema)

Além disso, segundo as palavras do profeta, as pernas eram retas, pés como os de um bezerro que reluziam como bronze polido. Debaixo das asas tinham mãos humanas.

Em seu programa já bem conhecido, o “Rota 66”, Luiz Sayão diz que as simbologias de Ezequiel tem estilo apocalíptico. Apesar de não haver muitos detalhes de como exatamente Ezequiel viu tudo isso, é possível falar dos símbolos, conforme o hebraísta.

“Os quatro rostos representam a ordem criada por Deus — ser humano, leão, boi e águia. São animais representativos e o número 4 faz referência a uma totalidade da Criação de Deus. Ele tem poder sobre toda a ordem criada”, continuou. 

Getúlio também observa que os seres viventes ao redor do trono são apresentados como uma classe angelical distinta. “São únicos e somente quatro, com quatro faces cada. Cada um guarda um setor de noventa graus ao redor do trono. O número quatro aponta para os quatro cantos da Terra e seus pontos cardeais”, acrescentou. 

“Cada ser aponta para um atributo específico do Senhor. O leão simboliza o poder e a majestade. O boi representa a força e o serviço. O homem aponta para o lado humano de Jesus e a águia mostra sua natureza celestial, pois é ave de voo altaneiro e que vê tudo; nada escapa a seu olhar”, disse ainda.

Sobre a imagem do Ofanim

Sobre as “rodas que se movimentam diante dos rostos”, o artista digital também comete um equívoco, quando seu trabalho é colocado frente às Escrituras


Representação de um “Ofanin” conforme o artista digital Jonas Pfeiffer. (Foto: Captura de tela/YouTube Spectrum Cinema)

Conforme o texto de Ezequiel 1.15-21, as rodas eram reluzentes, seus aros eram altos e cheios de olhos ao redor.  “Para onde quer que o Espírito fosse, os seres viventes iam, e as rodas os seguiam, porque o mesmo Espírito estava nelas”, diz o texto. 

Sayão explica que a imagem vista por Ezequiel simplesmente representa a onipresença de Deus. “As quatro rodas com aros altos e olhos ao redor mostram que Deus é onipresente e também onisciente. Ele enxerga e vê tudo, em toda parte. Essa visão revela para Ezequiel quem é o Deus que estava lidando com a história do seu povo”, disse. 

Sobre a imagem do Serafim

Na última tentativa de representar uma descrição bíblica que é totalmente simbólica, Jonas Pfeiffer pensa estar mostrando como é um Serafim. De acordo com a Bíblia, em Apocalipse 4.8, o ser visto por João tinha seis asas e era cheio de olhos, tanto ao redor como por baixo das asas. 


Representação de um “Serafim” conforme o artista digital Jonas Pfeiffer. (Foto: Captura de tela/YouTube Spectrum Cinema)

Sayão lembra que a visão de João é bem parecida com a visão de Ezequiel. O apóstolo disse ter visto “quatro seres viventes cobertos de olhos, que se pareciam com leão, boi, homem e águia”. Os animais aparecem como representação do poder e da força de Deus. 

“Dos animais selvagens, o leão é o mais expressivo e o mais forte. O boi, dos animais domésticos, é o maior. E temos a águia que é muito expressiva. Toda a criação reconhece a glória de Deus”, disse ainda ao se referir que o texto diz que os seres dão glória, honra e graças àquele que está assentado no trono

Sobre associar os quatro seres viventes aos quatro evangelhos, Sayão faz o seguinte comentário: “Essa sugestão não faz muito sentido. Sobre o leão ter a ver com Mateus, boi com Marcos, Lucas com ser humano e águia com João, são conexões difíceis. O sentido mais claro é de que toda a criação reconhece que Deus está no trono”. 

Getúlio também alerta para o cuidado em separar a simbologia da realidade dos seres espirituais. “O que Isaías, Ezequiel, Daniel e João viram foram seres reais, existentes no mundo espiritual e com nomes próprios, desconhecidos para nós”, explicou. 

“Daniel inclusive conversou com o anjo Gabriel que lhe trouxe revelações profundas sobre os tempos do fim, assim como Maria quando recebeu a notícia de que daria à luz ao Messias. Esses milhões ou bilhões de anjos, arcanjos como Miguel (Jd.1.9), serafins, querubins e seres viventes compõem os exércitos dos céus, razão pela qual um dos nomes de Deus é Adonai Tzevaot — Senhor dos Exércitos”, concluiu.

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